Filosofia ou Atelosofia?

Desde tempos remotos, o ser-humano exercita-se na prática de pensar.
Pensar sobre a formação do universo, do ser, da alma, do divino, da razão, sobre a salvação do corpo, da alma, do intelecto.
Uns pensaram na existência a partir de elementos da natureza, como ar, fogo, água e terra. Outros pensaram na existência a partir do movimento, da transformação, do vir-a-ser; outros, a partir de um princípio indeterminado e invisível, e ainda outros, a partir de algo invisível, porém determinado e indivisível.
Uns pensaram a existência a partir de um ser completo, sem passado ou futuro, outros, a partir da razão, do Logos, e ainda outros, a partir do número. Uns, na tentativa de explicar sua existência, conceberam a idéia de um criador ativo, outros de um criador passivo, um artífice que criou as leis do mundo e o deixou trabalhar por si só.
O homem sempre foi insaciável na sua busca por algo além do conhecimento adquirido. Sócrates dizia ser necessário conhecer a si mesmo; Platão, que já conhecemos previamente as coisas, mas precisamos nos esforçar para lembrá-las. Heráclito mostra que a razão é necessária para o viver feliz. Outros insistiram não ser possível chegar ao conhecimento absoluto, à verdade do princípio primordial.
Uns questionaram a verdade contida na mitologia.
Existiam os deuses? Existia o Deus único?
Uns tentaram provar cientificamente, outros, racionalmente e outros, pela meditação; uns a partir do pensamento, outros, a partir da realidade.
A filosofia é a arte de pensar, de buscar uma razão, uma compreensão para o invidíduo, para o ser, para a existência, para a verdade; é a arte de buscar conhecimento e chegar a um fim satisfatório, à liberdade da escuridão, a escuridão da ausência do saber.
“No princípio Deus criou os céus e a terra”: um conhecimento subjetivo? Mera opinião?
O ser-humano conhecia o criador dos céus e da terra de perto, convivia com Ele. Contudo, escolheu conhecer o bem e o mal, restando-lhe duas opções: afastar-se da verdade, do conhecimento do bem, ou permanecer no caminho da própria razão. Inúmeras vezes, Deus era quem se aproximava novamente do homem e tentava revelar-lhe a Sua vontade, a Sua verdade. Porém, o caminho escolhido pelo ser-humano continuou o do afastamento, e o conhecimento da razão não passou a ser apenas uma sombra da verdade. Ao perder seu trajeto, na tentativa de retorno, o homem transformou essa sombra num mero traço ilusório e distante, o qual alguns chamam de mitologia.
Deus, por Sua vez, mantinha contato, embora outros preferiam crer conhecer a razão, a verdade, e emaranharam-se em seus próprios ritos e tradições.
Finalmente, uma vez mais e definitivamente, Deus revela-se pessoalmente àqueles que optaram por afastar-se da verdade; verdade a qual alguns tanto buscaram e que, não encontrando-a, questionaram a si mesmos: que é a verdade?
Sabiamente a sabedoria se fez conhecida como o objeto de conhecimento daqueles que a buscavam, assim identificando-se a eles: para uns, lei, para outros, Logos.
A muitos foi revelado, mas somente poucos compreenderam e escolheram retornar ao conhecimento do bem, à verdade absoluta. Outros preferiram buscar uma solução para manter-se longe. Como? Ele mesmo disse: não vim destruir a lei. Entretanto, a solução de alguns foi justamente destruí-la. Para manter-se longe, a solução dos que buscavam a razão, a verdade, foi achegar-se a ela pelos seus próprios esforços. Desta forma destruíram o Logos, e assim o fazem ainda hoje, como um cão que ataca ao que tenta ajudar-lhe a sair do poço.
Aos que compreenderam, coube-lhes a missão de levar adiante o que lhes foi revelado. Tornaram-se amantes da sabedoria, porém a sabedoria do alto. Alguém, um próprio apóstolo, entendeu que poderia utilizar o método de pensamento dos que buscavam o Logos para mostrar-lhes a verdade absoluta, a razão a qual tanto buscavam: a verdadeira sabedoria. Porém, ainda assim alguns creram ser necessário ir além, e consideraram, como ainda hoje o fazem, esse apóstolo falto de saber e confuso em palavras, e tentaram subir em suas costas, enxergando com seus próprios olhos.

O problema? Tentaram subir mais alto a fim de enxergar mais longe, mas não sabiam que ele não via com seus próprios olhos, mas com os olhos do próprio Logos.
Dessa forma, não viram nada além de um horizonte sem fim. Sem fim, assim como sua própria sabedoria. Não sem fim no sentido de infinita, mas sem um propósito, sem rumo, levando a lugar nenhum.
Buscaram a prova da existência do Logos, embora esse já se fizesse conhecido por meio da própria criação. Ver a Deus: somente concedido aos humildes de coração. Seria essa a iniciativa de Sócrates ao expressar a busca pela razão através do reconhecimento do nada saber?

Se aprendemos e vivemos somente o que outros viveram antes de nós e nos passaram, podemos chegar a duas conclusões:

– aristotelicamente falando, o conhecimento veio daquele que veio antes de mim, e do que veio antes dele, e do que veio antes do anterior, até que chegue ao primeiro homem, o qual também fez-se conhecer por meio daquele que é eterno e o criou, isto é, o próprio Deus. Assim, ninguém pensa por si só, mas todo o conhecimento vem de Deus, o primeiro de tudo e todos.
– ou, então, não creio que Deus pode falar a cada um individualmente, e que não pode revelar-se quando quiser e dar-me pensamentos que ninguém ainda teve antes de mim. Desta forma, volto-me ao pensamento de que Deus não passa de um simples artífice e artista, que simplesmente criou o mundo e o conhecimento e fez este divagar-se entre as mentes daquele por gerações, até que se transforme na plena verdade por meio do esforço humano, o que me levaria a uma concepção deísta, sem um fim.

Creio, sim, na filosofia, mas como um amante da sabedoria do alto, que vai além do meu próprio esforço único.
Busco, sim, a sabedoria, mas com fé. Não uma fé cega ou fanática, mas uma fé que pensa, e que pensa não por si mesma, mas com a ajuda do ensinador. Buscaram o Logos, mas abandonaram o Parakletos. Buscaram a razão, mas abandonaram seu fornecedor.
Busco a verdadeira sabedoria, e não a sabedoria sem fim.

Filosofia? Ou, diria eu, Atelosofia?

.:. Sindra .:.

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